Estilo de vida

A diversidade e sua tolerância

Diversidade

Todos temos a necessidade de conviver e de nos relacionar com os outros. A diversidade, seja ela relativa ao sexo, identidade de género, orientação sexual, etnia, religião, credo, território de origem, cultura, língua, nacionalidade, naturalidade, ascendência, situação económica, estado de saúde, deficiência, de entre outras, leva-nos a refletir na forma como nos relacionamos com o outro. Pois, a maneira como nos relacionamos com o outro, mostra-nos a forma como lemos o mundo.

Partindo deste princípio, até a nossa identidade religiosa se constrói a partir do conhecimento do outro. Só assim é possível o exercício do amor, da compaixão, da generosidade e da esperança.

Gandi certo dia disse: “As religiões são caminhos diferentes convergindo para o mesmo ponto. Que interessa usarmos itinerários diferentes, desde que cheguemos ao mesmo objetivo.”

Certamente que a esta questão, Nelson Mandela teria respondido com a sua celebre frase: “Nenhum indivíduo, nenhum conjunto de opiniões, nenhuma doutrina política, nenhuma doutrina religiosa pode reclamar o monopólio da verdade.”

O direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião, vem consagrado na Declaração Universal dos Direitos Humanos, desde 1948.**  A discriminação, seja ela de que tipo for, tem oposição legal no quadro legislativo português, enquanto Estado de direito, discriminação que segundo Mário Lages***, tem a sua origem no “etnocentrismo resultante do imperfeito conhecimento de outros povos, credos, raças e culturas”.

Pondo em prática o postulado, as nossas convicções, religiosas ou outras, não são as únicas verdadeiras. Mas, se consideramos as nossas convicções, religiosas ou não, mais importantes do que as dos outros, ou se as tivermos como únicas e verdadeiras, estaremos a abrir portas para o conflito e para as tensões.

Em tempos de mudança como estes em que vivemos, a promoção do diálogo entre civilizações, culturas, povos e religiões, é necessariamente um caminho a percorrer, um caminho lento, mas inevitável.  A diversidade não significa a perda ou negação dos nossos valores, mais sim, o aprendermos a viver juntos – aceitemos isso.

Parafraseando Mia Couto, “Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho poderia começar, por exemplo, pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e de outro lado, aprendemos a chamar de “eles”.

De facto, a não interacção com o outro cristaliza a ideia que temos do outro e não favorece a interacção.

Amin Maalouf, no seu diagnóstico sobre o estado do mundo atual sustenta a diversidade referindo que “Todos somos o outro e não há estrangeiros.” (…) “Já não há estrangeiros.” (…) “Somos todos uma nação, e não podemos resolver problemas se não nos virmos assim: uma nação com muitas culturas. Quando começarmos a pensar dessa forma, entramos no que chamo o verdadeiro princípio da história.”

Existe ao longo da história de Portugal, uma linhagem de pensadores  como é o caso de Camões, Vieira, Agostinho da Silva, de Almada Negreiros e Teixeira de Pascoaes, entre outros, que defendem ser a essência do português, a universalidade.  Este é o entendimento que Paulo Borges  deu na sua interessante entrevista à Televisão de Macau em Lisboaonde falou também do seu mais recente livro sobre Fernando Pessoa “Do Vazio ao Cais Absoluto ou Fernando Pessoa entre Oriente e Ocidente.

Borges explica um Fernando Pessoa defensor de que a vocação específica do povo Português “é ser tudo” – a conciliação do cristianismo com o Budismo, com o paganismo, com taoísmo; Pessoa  acreditava poder fazer-se um “sincretismo”  de culturas e de religiões, criar pontes e diálogos entre culturas, um diálogo intercultural e inter-religioso, criar uma comunidade ético-espiritual mundial onde se transcendam e harmonizem as diferenças nacionais, culturais, políticas e religiosas.

Atual e moderno Fernando Pessoa surge, neste livro de Paulo Borges, como um criador de uma alternativa mental conducente ao despertar da consciência individual e coletiva de um Mundo Novo.

Borges referiu que Agostinho da Silva, no seguimento de Pessoa, chegou mesmo a considerar que seria vocação da lusofonia criar uma alternativa ao estado de consciência dominante – materialista, topocêntrica, e tecnocrática – hoje em dia, no planeta. Esta alternativa estaria centrada no novo estado de consciência que assenta na não separação entre os humanos, entre os humanos e a terra, e os seres vivos em geral. Esta seria pois, a alternativa mental à civilização dominante, esclareceu Paulo Borges.

Portugal tem, na verdade, caso o queiramos aproveitar, um contributo histórico que permite sustentar esta visão humanizada da necessidade de compreender e aprender com o outro.

De acordo com Paulo Borges,  o pensamento de Fernando Pessoa “transita em duplo sentido entre o Vazio e o Cais Absoluto. Move-se entre um e outro, sem jamais se fixar num ou noutro. Entre é o espaço por excelência do fluxo pessoano”, afirma. Este fluir no Entre relembra-me o que todos sabemos: a diversidade existe fora das religiões, entre religiões, mas também dentro das próprias religiões. O amor, a tolerância e a compaixão ao próximo, são aspectos comuns à humanidade. Os princípios e os direitos básicos fundamentais também. A ponte que os une é a diversidade.

Os pensadores que referi têm, de entre outros aqui não citados, o poder de impactar os leitores e o próprio mundo, numa visão utópica – ou não,  mas sobretudo não estática das culturas, em que a tolerância, o caminho para o entendimento e para a paz se constrói, a partir da aprendizagem e do conhecimento dos outros.

Cada um de nós, à sua escala, tem o poder de fazer a diferença na vida dos outros. Como? Através do vivenciar da própria cultura, do dia-a-dia, da partilha dos saberes e experiências de modo a que a sua própria identidade não seja esquecida nem perdida, aceitando e trabalhando com as diferenças, para que os laços de respeito, tolerância e convivência com o outro, se fortaleçam.

 

Foto: Quadro da pintora Christine Ellger

* “Mahatma Gandhi, 1869-1948, Índia, Cartas a Ashram”

**(DUDH) art.º 18º: Todo o homem tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular ( 1948.)

***LAGES Mário, e POLICARPO Verónica – Atitudes e Valores perante imigração; ( Observatório da Imigração, ACIME); Lisboa

Deixar uma resposta