Estilo de vida

Quem está preparado para lidar com a traição?

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Ninguém está preparado para lidar com a traição. Falar sobre a traição (infidelidade) sugere, normalmente, a ocorrência de uma mentira ou a falta de honestidade. Imagina-se de um lado a pessoa infiel, de outro a pessoa traída, e no meio de ambos o sofrimento, que mais não é do que o efeito da traição sobre o relacionamento, e isto sem falar da causa. Quem está preparado para lidar com esta realidade?

A terapeuta Olga Inês Tessari explica que a traição é mais comum em relacionamentos amorosos – “quando não há amor, há probabilidade de traição”, afirma.

“O amor é bastante exclusivo. Embora isso seja também uma coisa cultural. O homem é fundamentalmente monogâmico. E a mulher mais que o homem. Há um problema que também tenho estudado, a relação tem de ser criativa. Se vão sempre jantar ao mesmo restaurante, se vão sempre ao cinema, com os mesmos amigos, a relação torna-se monótona, chata. Tem de haver inovação, temos necessidade de coisas novas. A monotonia mata”, explica o psicanalista Coimbra de Matos.

Para alguns entendidos, a traição tem para os homens um peso diferente daquele que tem para as mulheres. Nas pesquisas efetuadas, Olga Inês Tessari observou que os homens traem por se sentirem atraídos sexualmente e porque as circunstâncias se mostraram favoráveis. Revelaram-se poucas, as situações relacionadas com o amor ou envolvimento afetivo. No caso das mulheres, os motivos mais citados foram a deceção, o desamor e a mágoa que nutriam pelo parceiro, esclarece.

Mas, as causas ou motivos da traição comportam vários fatores como, por exemplo, questões culturais, carências, insatisfação em relação a desejos e expectativas com a outra parte, vingança, a busca do “novo”, o estímulo provocado pela sensação de perigo, ou até mesmo a sensação de poder, afirma Olga Inês Tessari.

Segundo a terapeuta e investigadora privada Amy Dresher, “na maior parte dos casos, a traição não chega de surpresa”, existem sinais anteriores à traição que são ignorados pelas partes. E afirma, mostrar-se difícil para a pessoa traída, detetar a traição. E quando ela está consumada, torna-se mais difícil ainda compreender as causas e lidar com os seus efeitos.

Ester Perel, uma terapeuta de casais e autora de numerosas Ted Talks, relata que um caso de traição “junta três elementos chave: uma relação secreta, uma conexão emocional e o desejo sexual.” Tudo parece resumir-se a isto. O que varia é a intensidade, a motivação e o significado.

Na verdade, para algumas pessoas a traição emocional (sem contato físico) pode causar também dor e sofrimento e insegurança e para outras esta realidade não tem qualquer tipo de significado.

Mas, não se pense que o traidor não sente culpa. “O traidor tem sentimentos que, durante muito tempo, foram negligenciados. E tem um sentimento de culpa que não é um sentimento vulgar. É uma culpa muito pesada, muito paralisante, quase física”, afirma a psicóloga terapeuta familiar Luana Cunha Ferreira, num artigo de Carolina Reis, publicado no expresso em 01.05.1017 sob o título “Desejo, vontade e culpa”.

Há entendidos que defendem que quando algumas pessoas se sentem reprimidas relativamente as suas fantasias e anseios acabam por trair. A traição funciona aqui como uma espécie de “máscara” para esconder quem realmente são, ou gostariam de ser. A traição pode funcionar também, como uma “válvula de escape” quando quem trai, acredita ter um motivo muito forte para o fazer – “eu mereço ser feliz” – este é o sentimento que lhe ressalta.

E como não existe uma regra sem a exceção, a traição nem sempre se deve a problemas entre o casal, ou a um mau relacionamento. Por vezes as pessoas sentem-se felizes com os seus parceiros mas acreditam que podem ser ainda mais felizes assumindo a infidelidade. Nestes casos a traição funciona como uma experiência positiva para a relação. É isto que nos relata a psicóloga Shirley Glass.

Mas, nos casos em que a traição é vivenciada como uma experiência negativa ela representa um fim? Olga Inês Tessari considera que não. É “um mito” acreditarmos que a traição representa o fim de um relacionamento e que o destrói. De acordo com as pesquisas que efetuou, a maioria absoluta de homens e mulheres procura esquecer o que se passou. O maior obstáculo é, sem dúvida, conseguir ultrapassar o choque inicial. Mas afirma ser possível superar o trauma e, em muitos casos, até sair do problema com a relação fortalecida.

Neste contexto, Luana Cunha Ferreira, sublinha que “cada casal é um planeta. Há pessoas que consideram traição só quando se envolvem com outra pessoa; outras consideram traição só o ver pornografia, individualmente, e aqui não há nada de físico e também não há nada emocional. Mesmo assim há muitos casais que dizem que isto é traição porque ela ou ele foram buscar prazer a outra fonte. Já para outros casais isto é ridículo porque só conta quando se envolvem emocional ou fisicamente com outro. Há pessoas para quem o flirt não é traição, desde que a conversa mantenha um certo nível”.

E, em género de esclarecimento, refere que “cada casal define as fronteiras da sua fidelidade. E define se a traição – ou a traição que conta para colocar em risco a relação – é física (consumada com sexo); emocional (em que há uma ligação afetiva com a terceira pessoa); física e emocional; digital (feita à distância através das redes sociais); ou se até o pensar em outra pessoa conta. Cada indivíduo pode definir até que ponto deixa a alquimia do desejo mexer consigo.”

Na verdade, a opção pela procura de conforto fora do relacionamento está dentro da esfera de decisão e de atuação individual de cada pessoa. Do mesmo modo, a decisão de transformar as situações negativas em positivas. Tudo depende da capacidade de cada um se posicionar perante as escolhas, potencialidades e adversidades que a vida lhes apresenta dentro dos limites estabelecidos na relação.

 

Foto: Quadro de Cristina Fornarelli  

Fontes:

Expresso | Desejo, vontade e culpa 

Expresso | António Coimbra de Matos: “Não é fácil amar, mas é bom … 

Traição: sofrimento! – Olga Tessari –

Esther Perel: Repensando a infidelidade…uma palestra … – TED.com

Revista Happy Woman n.º 133 de 3/março/2017, pags. 82 a 87;

Revista Happy Woman de 7/julho/2017

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